Ser Professor do 1.º Ciclo

segunda-feira, junho 19, 2006

Blog quanto ao conteúdo

Na continuação do post anterior, apresento de seguida os resultados preliminares da análise de conteúdo feito a partir do blog. Trata-se de uma selecção (longe de ser exaustiva) de alguns temas-chave emergentes sobre a construção do conhecimento profissional no processo de se tornar num professor do 1CEB, que a leitura do blog acabou por fazer emergir. Tento, assim, dar visibilidade a alguns aspectos que me parecem ser mais recorrentes nas vossas intervenções.

Estamos perante uma riqueza e uma densidade enorme de situações relacionadas com a construção do conhecimento profissional. Isto pode ser justificado um pouco pelo facto de reverterem as reflexões das entrevistas e dos registos individuais para o blog, tornando visíveis os aspectos mais significativos acerca do processo de construção do conhecimento profissional.

Os resultados conseguidos no blog são, sobretudo, fruto de uma postura reactiva à moderação e dinamização do mesmo. Os dados das entrevistas e dos registos escritos devem ser combinados com os dados do blog para validar o processo de análise de conteúdo.


3. Blog quanto ao conteúdo

1) Os professores neófitos referem com insistência o interesse e a vantagem de participarem em processos de investigação inovadores para o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Alguns dos aspectos mais citados pelos professores são a participação na investigação como uma ajuda para a reflexão, a continuidade dos processos de formação, os ganhos ao nível do enriquecimento profissional e pessoal, a vontade de trabalhar em comum, a participação numa experiência inovadora e pioneira, a possibilidade de aprender com as experiências dos colegas, de reflectir e partilhar experiências concretas.


2) Os professores neófitos apreciam a formação inicial de forma muito positiva, referindo-se a um nível superior de qualidade em relação a outros contextos de formação.

Estabelecem uma forte correlação entre as aprendizagens da formação inicial e as orientações que assumem na actividade profissional. Acreditam que nenhuma formação inicial os pode preparar para tudo, assim como acreditam que lhes proporcionou instrumentos e competências para enfrentar os diferentes contextos escolares com sucesso.


3) A profissão docente no 1CEB como uma actividade profissional intensa, a tempo inteiro, desgastante e absorvente.

É uma actividade que não pode ser assumida como um emprego, pois não é possível desligar e deixar de pensar na escola, nas crianças. Algo lhes diz que existe um desígnio maior, um dever profissional, que orienta e move a actividade profissional, apesar das dificuldades e dos contextos nem sempre serem os mais favoráveis. Para lá do momento da intervenção e da interacção com as crianças, existem um sem número de situações que é preciso cuidar. Assim, ser professor do 1CEB é uma forma de vida, uma forma de estar, muitas vezes com prejuízo da vida pessoal.


4) A formação inicial iniciou um processo de construção de um perfil profissional baseado na investigação, reflexão e colaboração, conceitos centrais dos processos de formação desenvolvidos pelo IEC, da UM.

Trata-se de uma marca que os distingue como profissionais e que não encontram noutros contextos de formação. É um perfil profissional que precisa de ser alimentado e está em constante questionamento, pelo que se trata de um processo de aprendizagem e construção ao longo da vida.


5) A importância da construção de Projectos Curriculares Integrados na formação inicial e no período de indução, simultaneamente como instrumento fundamental para a mediação dos processos de aprendizagem das crianças e para a gestão flexível do trabalho curricular dos professores.

Salienta-se ainda a flexibilidade dos pressupostos da construção do Projecto Curricular, em função dos contextos escolares, da comunidade docente, das crianças que temos na sala de aula. Relacionado com o desenvolvimento do Projecto Curricular Integrado, encontra-se um conjunto de outras situações que definem a intervenção pedagógica e curricular com a qual os professores principiantes se identificam e dizem constituir a sua matriz de trabalho, nomeadamente a metodologia de projecto, a articulação curricular, o aprender a aprender, o desenvolvimento de competências.


6) Há uma preocupação evidente pelos aspectos didácticos, pois consideram esta dimensão menos conseguida na sua formação e susceptível de provocar dúvidas e insegurança, até pelo facto de serem professores principiantes.

Há preocupações específicas ao nível da leitura e da escrita da língua materna. Apesar da consciência de algumas lacunas na formação inicial ao nível das didácticas, há, ainda assim, uma percepção de um trabalho bem conduzido e que não é possível especificar todos os aspectos que serão objecto de preocupação na actividade profissional. Assim, fica também a noção bem vincada, em consonância com o perfil profissional do professor, da necessidade/vontade de aprender com a experiência e com a formação contínua.


7) O período de indução profissional é apreciado pelos professores neófitos como um momento onde não há qualquer apoio institucional, onde a insegurança acaba por tomar um espaço importante nas suas preocupações.

Muitas vezes vêem-se na necessidade de lidar com conflitos decorrentes de um certo confronto com os colegas mais velhos, que consideram as suas práticas demasiado complexas, esforçadas, como quem pretende mudar o mundo. Torna-se necessário realizar um salto emocional e relacional para enfrentar os contextos profissionais, em grande parte dos casos sem qualquer ajuda, o que faz retrair as iniciativas mais voluntaristas. Mas também aceitam como um desafio as dificuldades que encontram nos contextos profissionais, demonstrando confiança na formação inicial que obtiveram.


8) Os aspectos burocráticos imperam na gestão de muitas escolas e desviam os professores sua verdadeira função: ensinar e inovar as práticas.

O tempo é sentido como um bem muito escasso, devido à intensificação da actividade curricular e de todas as solicitações que daí decorrem: as crianças, os pais, as dificuldades de aprendizagem, os ritmos diferenciados, a articulação curricular. As reuniões de professores, pelos mais diversos motivos, o preenchimento de papéis, os relatórios para fazer, acabam por ser situações que fazem esgotar a paciência, já de si nos limites com a intensificação do trabalho. A dita burocracia torna visível a sensação de que se está a trabalhar de uma forma pouco produtiva e, sobretudo, sem grande repercussão para aquilo que mais valorizam e gostariam de estará a fazer, que diz respeito ao trabalho curricular e pedagógico. A sensação generalizada é a de perda de tempo com consequente perda de vontade de apostar em práticas inovadoras.

2 Comments:

  • Ok. Li e realmente revejo-me em quase todos os aspectos focados. Mas neófitos??? Que termo tão... deprimente! Nós somos ISSO?

    :)

    By Blogger Ana Tavares, at 7/21/2006 11:09 da manhã  

  • Bem, neófito é, de facto, um dos termos que aparece na literatura da especialidade para identificar os professores em início de carreira (período de indução profissional).
    Pode ser também principiantes, mas o termo também não parece dos mais felizes, pois indicia um período inicial de aprendizagem, de adaptação, de algumas dificuldades.

    Em inglês, o termo mais usual é ‘beginners’ ou ‘beginning teachers’, daí a tradução para principiantes.

    Pode ser que com esta investigação possamos sugerir uma outra terminologia. Aceito, desde já, sugestões!

    By Blogger Carlos Silva, at 7/24/2006 2:00 da tarde  

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