Ser Professor do 1.º Ciclo

sábado, março 25, 2006

Práticas inovadoras... ?

A propósito do post anterior, e partindo do princípio, a acreditar no que vêm dizendo neste e noutros momentos desta investigação, que a vossa formação inicial contribuiu para a construção de um perfil de professor inovador (ou não?), como podemos, então caracterizar as vossas práticas profissionais? E como posso verificar isso (a inovação) nas vossas práticas/preocupações quotidianas de professores em período de indução profissional?

3 Comments:

  • Na minha opinião, o professor tradicional distingue-se do professor inovador através de uma conjugação de factores/características que diferencia estas identidades profissionais. Porém, existem características do professor tradicional que são reincidentes no professor inovador, o que não lhe retira tal designação. Por exemplo, muitas vezes referimos que o professor tradicional é um “(re)transmissor de conhecimentos”, característica esta que o professor inovador pode, por vezes, comungar, uma vez que, num primeiro ano de escolaridade (centro-me muito no 1.º ano porque é o ano em que estou a leccionar) pode ser muito difícil promover o desenvolvimento da leitura e da escrita sem se recorrer a momentos de exposição directa. Porém, o facto do professor inovador poder, eventualmente, partilhar características/estratégias/recursos do professor tradicional, não significa que o primeiro perderá a autenticidade que o caracteriza.
    Na minha opinião, o professor inovador é aquele que faz uma real interpretação do currículo a desenvolver. Isto é, se tomarmos como exemplo um professor que, ainda hoje, lecciona como leccionava em 92/93, estaremos perante um professor que se acomodou e que não possui uma vontade de se actualizar. Um professor deve estudar e proceder, gradualmente, a transformações pessoais, profissionais e académicas que se repercutam na sala de aula, uma vez que nele estão presentes orientações curriculares que visam promover a mudança. Assim, o professor inovador, na minha opinião, é aquele que é capaz de se adaptar e responder às reais exigências do quotidiano e promover a mudança através das suas práticas na sala de aula, proporcionando experiências de aprendizagem activas, diversificadas, integradas, socializadoras e significativas.
    Outra situação que caracteriza o professor tradicional é a “desactualização”, se assim lhe posso chamar, perante os diversos métodos de ensino (centro-me muito no 1.º ano). Por exemplo, na minha turma, sempre que surge uma letra que possa adoptar diferentes valores, a minha decisão vai no sentido de adoptar uma abordagem que os contemple.
    Se seguisse literalmente as orientações curriculares, abordaria primeiramente o s; mais tarde o s = z; ss e só mais tarde o ç. No entretanto incorreria no erro de ver alguns alunos a escreverem massa e laço assim: masa e lasso (dado que para ler s no meio de duas vogais temos de colocar dois s). Não posso dizer-lhes: “está mal, para a semana verão como se escreve. Inventem outra palavra para esse contexto”. Será que devemos deixar que hajam dúvidas nas mentes das crianças?
    Do mesmo modo, ficariam “baralhadas” ao ver na data, Março escrito desta maneira.
    Penso que assim a aprendizagem da Língua Materna se torna menos confusa, uma vez que as crianças não têm a possibilidade de criarem “falsas regras”. A meu ver, trata-se de olhar para a criança como pessoa e não como um corpo estático, incapaz de produzir significado para o que aprende.
    Nas minhas práticas procuro partir do conhecimento dos alunos e possibilitar que eles o reconstruam e criem um significado próprio e pessoal para as suas aprendizagens, pondo constantemente à prova os seus conhecimentos. Cada vez que as crianças estudam uma letra nova, fazemos um brainstorming com palavras que tenham essa mesma letra. Assim, os alunos participam nas escolhas das palavras e vêm todas as possibilidades de as escreverem, tentando perceber algumas regras gramaticais. Claro que os textos que selecciono não integram todos os valores ao mesmo tempo, para que se possa reflectir e perceber algumas regras gramaticais mas, pelo menos, tenho sempre uma resposta a dar perante a escrita das crianças.
    Estes são alguns exemplos em que eu considero que um professor tradicional difere de um inovador, porque o último reflecte, investiga e age em consonância com as necessidades do contexto.
    O importante é conjugar-se o que há de melhor nos dois perfis!
    Muito mais haveria a dizer mas penso que o comentário já vai longo...

    By Blogger Paula Ribeiro, at 3/28/2006 8:58 da tarde  

  • Uma ideia mais para incluir nesta postagem e que pode estar relacionada com uma das questões que a Paula referiu – a necessidade de ‘sistematização’ e ‘transmissão’ do conhecimento.
    Tive o privilégio de ser aluno da Professora Guilhermina, ilustre Professora da área de Matemática, ligada à formação inicial de Educadores e Professores do 1CEB, na Universidade do Minho, que recordo com saudade, pois infelizmente já não está mais connosco. Sempre tive a Professora Guilhermina como um modelo de Professora inovadora pela motivação e interesse que conseguia colocar em tudo que nos propunha do ponto de vista da nossa aprendizagem de competências na área da Matemática e não só (este não só também é importante).
    Dizia a Professora Guilhermina, e espero não faltar à verdade, que os Professores do 1CEB não devem nunca esquecer que a 'memorização' e a 'repetição' joga um papel importante na aprendizagem em crianças destes níveis de ensino. E isto nada tinha de contraditório com uma prática inovadora, que envolvesse a motivação, a autonomia, a significatividade e funcionalidade da aprendizagem.
    A Professora Guilhermina, pelo seu testemunho de Professora, confirmava este pensamento, que era depois detalhado, em função das circunstâncias. Da minha parte, ao longo da minha experiência profissional, ligada à formação inicial de Professores do 1CEB, fui percebendo e encontrando argumentos práticos e teóricos que corroboram deste princípio. E vocês, o que acham? O que vos dizem as vossas práticas, o que vos dizem as aprendizagens das crianças?

    By Blogger Carlos Silva, at 3/30/2006 3:47 da tarde  

  • Olá professor Carlos!
    Concordo com a professora Guilhermina quando disse que a 'memorização' e a 'repetição' joga um papel importante na aprendizagem.
    Claro que o mais importante é compreender aquilo que se está a trabalhar, mas a repetição, no sentido de proceder à sistematização do aprendido e apreendido, e posterior mobilização dos conhecimentos irá permitir que tal conteúdo seja efectivamente assimilado.
    Por outro lado, creio que a memorização: de lenga-lengas, de provérbios, de histórias, incita a um certo treino mental que lhes será necessário ver desenvolvido mais tarde. O fundamental do processo de ensino-aprendizagem é que o aluno se constitua como a construtor principal do conhecimento, por forma a que produza um significado próprio para aquilo que aprende. Assim, mesmo quando o aluno memoriza conteúdos, o importante é que este seja capaz de criar um significado próprio, não só para a actividade, mas também para o próprio conteúdo. Desta forma, se a memorização e a compreensão comungarem de um caminho comum, o aluno será capaz de estabelecer relações com o que aprendeu, com o que aprende e com o que aprenderá.

    By Blogger Paula Ribeiro, at 4/02/2006 11:02 da tarde  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home