Ser Professor do 1.º Ciclo

terça-feira, janeiro 17, 2006

Um pequeno desabafo.

Estava eu a visitar uma escola pela primeira vez (uma daquelas escolas que parecem esquecidas num país de TGV's, estádios de futebol, aeroportos grandiosos e por aqui me fico...) a propósito de um projecto de intervenção ao nível das TIC quando alguém que me dava a conhecer a escola afirma algo que me fez repensar tudo o que aqui debatemos, na minha formação inicial, em suma, que me fez rever a essência da profissão de professora do 1.º Ciclo. Na altura, a dita frase massacrou-me o cérebro por alguns momentos. Hoje massacra-me a alma só de pensar quantos professores não existem com a mesma frase a guiar o dia-a-dia.
O que se colocava na altura era a necessidade de a professora acompanhar o trabalho que me estava a propôr concretizar junto dos seus alunos. Eu queria que ela se envolvesse em todo o processo, uma voz activa com intuito de dar continuidade ao trabalho na minha ausência. A resposta que obtive transcrevo de seguida...

- "Oh colega, não vale a pena!!! Vou para a reforma em Maio e não vale a pena sequer meter-me numa coisa dessas. Dou-lhe os meninos e a colega faz o que quiser."

Já dizia o Poeta: "Vale sempre a pena, quando a alma não é pequena."

Acho que vou fazer desta frase um meio para a reflexão.

3 Comments:

  • Olá Luciana.

    A mim o que me preocupa, em atitudes dessa natureza, para além de uma perspectiva totalmente errada de profissionalismo docente, são as consequências que daí podem advir para a formação das crianças envolvidas com esses ditos ‘profissionais’.

    Numa ou noutra circunstância mais restrita, o tempo até pode encarregar-se de fazer ‘esquecer’ ou ‘resolver’ o bem que não se fez ou que se poderia ter feito ou ainda, o que é pior, o mal que se acabou por fazer. A família e os contextos de proximidade, quando favoráveis, podem ser uma forma de atenuar esses problemas. A questão está quando a escola poderia ser o único contexto para fazer essa diferença (uma das garantias que o Estado deveria manter nas sociedades modernas). Em qualquer dos casos, a postura não deixa de ser intolerável.

    Noutro sentido, atitudes sistemáticas e em continuidade dessa índole podem-se constituir em traços da (de)formação nada recomendáveis, que acabam por deixar marcas para todo o percurso académico e profissional. Por aqui se pode aquilatar da importância desta profissão, acrescida pelo facto de estarmos a trabalhar com idades e fases verdadeiramente estruturantes do crescimento físico, emocional e intelectual. Por aqui se pode perceber a diferença incomparável entre as consequências de erros técnicos do ponto de vista industrial, económico ou de outro sector da sociedade (que não deixam de poder ser importantes!), e as consequências de opções educativas questionáveis e de formas de estar na profissão docente pouco empenhadas e ‘profissionais’.

    Talvez o tempo não ajude a sociedade a ter a percepção correcta da dimensão do problema, pois se há erros ou opções que têm implicações mais ou menos imediatas no nosso quotidiano, outros levam décadas a perceber-se o que está em causa. Parece-me ser o caso da educação; será, eventualmente, por isso que a sociedade mantém uma atitude hostil em relação aos professores, à escola e à própria educação.

    Em súmula, tudo isto leva-me também a questionar um traço fundamental da profissão docente: trata-se do compromisso e do envolvimento moral e ético intrínseco ao exercício docente, pois está em causa a necessidade de garantir a qualidade de vida das gerações vindouras.

    By Blogger Carlos Silva, at 1/18/2006 7:18 da tarde  

  • O Processo de Bolonha, na formação de professores parece que está a arrancar...

    Gostaria de deixar aqui algumas questões:

    Este processo passa pela reestruturação dos P.C. Integrados de cursos como o nosso - L.E.B 1º ciclo....

    Que componentes poderia ser articuladas? será necessária a reformulação dos seus programas?

    Que aspectos de formação deverão ser valorizados?

    Na minha opinião acho que poderiam articular-se melhor as disciplinas de índole científica, no sentido em que de uma forma verdadeiramente integrada, se pudesse desenvolver um modelo de formação que previlegiasse mais a colaboração, a partilha de ideias em vez de uma realidade de formação por vezes compartimentada, que só mais tarde, no terreno, conseguimos começar a encadear as coisas....

    Que dizem?

    Boa Noite...

    By Blogger Nuno Monteiro, at 1/19/2006 9:29 da tarde  

  • Oi Luci!
    Quantas vezes no nosso estágio não debatemos sobre comentários como este que fomos ouvindo, infelizmente, aqui e acolá...
    A verdade é que vim para uma escola que me mostra que o contrário é possível, ou seja, aqui encontrei colegas que não vêm o ensino como um emprego, mas como uma forma de vida, com tudo o que isso implica. Infelizmente, devido ao volume de papel a que nos obrigam, o tempo de que dispomos na escola é para isso mesmo, sendo que, para trabalhar para as nossas crianças abdicamos do nosso tempo pessoal. E fazemô-lo com toda a disponibilidade, o pior é quando as entidades superiores não pensam da mesma forma e não nos acompanham neste caminho, sobrecarregando ainda mais o trabalho burocrático.
    Mas cá vamos andando, tal como nos ensinaram e nos prepararam na formação inicial: remar contra a maré sabendo que temos a responsabilidade de um mundo melhor sobre nós.
    Bjs

    By Blogger Ana Tavares, at 1/31/2006 1:15 da tarde  

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