Ser Professor do 1.º Ciclo

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Ciências da especialidade: as didácticas.

Olá a todos.

No âmbito da dinamização que me propus fazer deste blog, e no seguimento da análise preliminar que faço das entrevistas e dos relatórios escritos sobre a formação inicial, queria agora lançar outra questão para debate, que deixo à consideração das pessoas que entenderem emitir uma opinião, e que possa acrescentar algo mais, para além daquilo que já foi dito a propósito.

Quando olhamos para a formação inicial de professores pensamos nas componentes que a constituem e que lhe dão corpo: as Ciências da Educação, as Ciências da Especialidade e a componente da Prática Pedagógica. A questão que queria tratar diz respeito às didácticas específicas, no âmbito do trabalho pedagógico que os professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico desenvolvem junto das crianças, promovendo aprendizagens, que queremos sejam significativas, activas, motivadoras, diversificadas, integradas, socializadoras, funcionais.

Este tema vem a propósito da postagem anterior, onde a formação inicial do IEC é vista de uma forma muito positiva. Apesar da participação nessa postagem não ter sido muito concorrida, verifico pelas entrevistas, pelos relatórios que já tenho na minha posse e pelos comentários deste blog, haver uma apreciação global à formação inicial muito favorável.
Ainda assim, há aspectos que fazem questão de relevar como sendo necessários alterar ou melhorar. Um desses aspectos diz respeito a algo que valorizam como muito relevante para o desempenho profissional e que a formação inicial nem sempre tratou da melhor maneira: as didácticas das diferentes áreas curriculares do 1.º Ciclo do Ensino Básico. Apontam até o trabalho ao nível das ciências da especialidade, e das suas didácticas, como aquele onde a formação acabou por ser mais deficitária. Especificam, sobretudo, a preparação pouco cuidada ou mesma a falta de preparação para as questões da iniciação da leitura e da escrita, pois consideram este trabalho como fundamental para a vossa actividade prática.

Daqui posso inferir algumas questões:
– Não é contraditório este juízo de valor favorável sobre a formação inicial com a importância atribuída às didácticas e a relativa falta de preparação ao nível dessas didácticas, que afirmam ter acontecido durante a formação?
– É verdade transparecer um sentimento de algum desapontamento pela falta de relacionamento entre esta componente das didácticas e as outras componentes da formação, no sentido de fazer a ponte entre os aspectos teóricos e práticos, a partir da própria prática pedagógica?
– Que tipo de trabalho, então, gostariam de ter visto na formação inicial para dar respostas a essas vossas preocupações?
– Que alterações curriculares, organizativas ou outras seria necessário fazer para melhorar este aspecto da formação?

São muitas questões, são muitas dúvidas. Se quiserem, centrem-se apenas nalguns aspectos que queiram realçar sobre o assunto desta postagem: a pertinência/qualidade das didácticas específicas (de todas as áreas) na formação inicial dos professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico (em concreto, na vossa formação). As questões servem para provocar a reflexão; se não ajudarem, sigam antes os vossos indícios acerca desta temática.

Aguardo os vossos comentários.

6 Comments:

  • Olá a todos!

    Agora que entrei em campo, por assim dizer, compreendo perfeitamente as dúvidas que são aqui levantadas. Sinto, especialmente nestes últimos dias, exactamente o mesmo. Ou seja, por um lado, tenho consciência que estou bem preparada. Sei o que é e para que serve um PCT, por exemplo, e sei igualmente que consigo planear actividades dignas de um estágio do 4.º anos. Mas, o que muitas vezes me surge como dúvidas são mesmo aspectos relacionados com as áreas das didácticas.

    Ainda assim, penso que quando dizemos que a formação no IEC é bastante positiva mas que, ao mesmo tempo, apresenta lacunas, estamos já a mostrar que somos fruto de um processo de reflexão constante, e atrevo-me a dizer, de insatisfação constante.

    De facto, estamos bem preparados porque adquirimos um conjunto de ferramentas que nos permitem resolver qualquer problema: a capacidade de investigar e reflectir.

    Quanto a isso nada a dizer, o problema é que, e voltando a um tema já abordado em postagens anteriores, nem sempre temos o tempo necessário para o fazer. Ou seja, a papelada é tanta que nem sempre conseguimos um tempo para nos dedicarmos, efectivamente, aos nossos meninos.

    O problema é que é a nossa vida privada que sai prejudicada. Por enquanto não parece haver problema. E daqui a uns anos?
    Estaremos a dizer o mesmo?

    By Blogger Ana Tavares, at 2/01/2006 9:41 da tarde  

  • Gostaria de partir da primeira questão surgida:

    "Não é contraditório este juízo de valor favorável sobre a formação inicial com a importância atribuída às didácticas e a relativa falta de preparação ao nível dessas didácticas, que afirmam ter acontecido durante a formação?"

    Considero que generalizar a falta de preparação ao nível das didáticas não será o mais correcto. Podemos referir uma ou outra didática que poderia ter sido mais explorada. Ao referir uma "falta de preparação" acho que podemos falar mais de um constante sentimento de "insegurança" que considero positivo pois possibilita uma consciência anti-dogmática. Infelizmente, mesmo depois de terminada uma licenciatura, não somos possuidores da sabedoria máxima possivel para a docência! Temos de ter a capacidade de investigar e aprender todos os dias!
    Por certo que nos sentimos mais preparados numa área do que noutra, sobretudo se essa área foi susceptivel de uma aprendizagem mais eficaz ao longo da licenciatura. Pessoalmente, penso que as disciplinas das didácticas da matemática foram mais eficazes que as do domínio da leitura e da escrita ou das expressões e isso reflecte os meus anseios relativamente à planificação de actividades neste domínio.
    Outro aspecto é que muitas vezes o sucesso da disciplina deve-se também ao professor que a lecciona e/ou a metodologias adoptadas. Ao sugerir a articulação das didácticas com as práticas será uma tentativa de uniformizar a nossa preparação académica e nos equilibrar como professores.

    By Blogger Luciana Ferreira, at 2/02/2006 8:55 da tarde  

  • Boa Noite...

    "Didáctica

    do Gr. didaktiké


    s. f.,
    a arte de ensinar e de fazer aprender;

    conjunto de preceitos que têm por fim tornar o ensino prático e eficiente;

    ciência auxiliar da pedagogia que promove os métodos mais adequados para a aprendizagem"

    Ora aí está um bom mote para introduzir a minha reflexão sobre o tema....

    Na formação inicial, penso que todas as didácticas procuram fundamentar-se em paradigmas pedagógicos de cariz construtivista. Até aqui nada de novo...

    O que na minha opinião penso que deveria ser mais aprofundado era realmente, alguns métodos mais relevantes para a nossa vida profissional, especialmente no que concerne à Língua Materna, porque realmente, houve uma cadeira em que me senti completamente perdido, por não conseguir compreender o essencial dos métodos de iniciação à leitua e escrita e especiaolmente ver a forma como isso iria ser trabalhado na prática.

    Ora então, o que poderia ser mudado de forma a melhorar este aspecto que referi, e sabendo nós que no ensino não há receitas?

    Se calhar, não passará pela selecção de escolas cooperantes nos estágios onde esses mesmos métodos sejam trabalhados e os pressupostos teóricos postos em prática?

    Porque não, articular desde o mais cedo possível, o trabalho de construção dos projectos curriculares das professoras cooperantes com os dos formandos, no sentido de haver uma espécie de indução metodológica?

    Não seria isto uma forma de começar a ver a ligação entre aquilo que aprendemos com o que é desejável que aconteça?

    Aqui ficam algumas sugestões....sáo em forma interrogativa para ver se alguém as comenta ....

    Bom trabalho...

    By Blogger Nuno Monteiro, at 2/02/2006 10:49 da tarde  

  • Olá a todos!
    Em relação às questões relacionadas com as didácticas trabalhadas na licenciatura, partilho da opinião da Luciana, quando refere que não podemos generalizar ao referirmos que fomos mal preparados nesta área. De facto, houve umas mais significativas do que outras, dependendo também dos interesses e motivações de cada um.
    Por outro lado, parece-me difícil que todas as disciplinas sejam acompanhadas sempre pela prática, até porque em cada didáctica foram ou deveriam ter sido abordados assuntos relativos aos quatro anos de escolaridade do 1º ciclo.
    De facto, o ideal seria que a formação inicial nos preparasse para todas as situações, mas cada vez me convenço mais que em educação não há receitas e que temos que aprender com a experiência e com a formação contínua.
    Bom trabalho!

    By Blogger Eva Santos, at 2/03/2006 10:12 da tarde  

  • De facto, apesar de a formação inicial ter sido, na minha opinião, extremamente completa penso que faltou alguma integração e colaboração entre as várias disciplinas e os seus professores.
    Com certea que não podemos generalizar e que esta questão não é assim tão linear.
    No entanto, depois de ler a postagem do professor fui buscar os meus apontamentos das didácticas e observei-os durante algum tempo. Desta observação surgiram-me diversas questões: não poderia o tempo destas disciplinas ter sido melhor aproveitado? Que ensinamentos tirei? Que aprendizagens fiz?
    De forma alguma pretendo questionar o profissionalismo dos docentes... Apenas penso que deveria ter existido uma cultura colaborativa durante toda a nossa formação inicial não só da parte dos aprendentes, mas também por parte dos "mestres". Tal como já referi na entrevista, se nos incutem o idel de trabalho por projecto integrado, porque não desenvolver um durante a formação inicial? Porque é que, em muitas situações, os trabalhos realizados nas didácticas não eram depois postos em prática no nosso estágio?
    Uma opinião muito sincera... aprecebi-me que, entre os vários departamentos, existia uma certa "disputa", existindo alguns professores que não entendiam o relevo que nós, enquanto alunos, atribuíamos à prática pedagógica.
    Penso que a melhor sugestão que posso dar (e quem sou eu para dar sugestões!!!) é que se comece a pensar num trabalho colaborativo, feito em equipa e com um objectivo comum: a realização dos futuros professores e a tentativa de uma formação o mais integrada possível!!!

    By Blogger Ana Beatriz Costa, at 2/03/2006 10:51 da tarde  

  • Algumas ideias suscitadas a propósito dos comentários produzidos até agora nesta postagem:

    - No trabalho pedagógico, na aprendizagem escolar a questão da didáctica dos conteúdos assume um papel relevante. Em última análise é o último passo, a mediação entre aquele que ensina e aquele que aprende.
    - Parece que a formação inicial precaveu muito bem a abordagem curricular, mas deixou espaços por preencher nas didácticas.
    - Uma abordagem estratégica ao nível do currículo é fundamental, mas se a didáctica falha de pouco ou nada nos serve esse pensamento de gestão curricular, pois podem não estar garantidas as condições para a aprendizagem.
    - O reconhecimento da importância das didácticas leva a sugerir um trabalho de colaboração com as práticas pedagógicas, procurando fomentar uma formação integrada do perfil profissional de professor do 1CEB.
    - Formou-se também a consciência da formação de profissionais capazes de investigar e reflectir, pois não há receitas para todos os problemas que a escola do 1CEB coloca, nem a capacidade da formação inicial preparar para tudo.
    - Para além da formação inicial há a necessidade de desenvolver um processo de aprendizagem ao longo da vida, fundamentado na experiência, na partilha, na colaboração e na formação contínua.

    Tudo isto tem a ver com o que aqui já foi dito ou traz algo de novo?

    By Blogger Carlos Silva, at 2/10/2006 4:27 da manhã  

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